Foi há um ano que partiste para outro lugar...não tenho dúvidas de que para um lugar onde apenas reine a paz...pois tu não merecias nunca outro lugar...
Eu sei que não nos abandonaste, que não nos deixaste...eu sei que jamais te esqueceste de nós...mas a tua presença física, o teu olhar, o teu sorriso, as tuas expressões tão só tuas e de mais ninguém, a tua gargalhada...tudo isso nos deixou... Tudo o que temos são as recordações tão boas desses momentos em que tu sorrias, em que nos fazias rir... Mas as recordações não chegam para nos saciarem desta vontade que todos temos de que estivesses aqui, fisicamente, connosco...porque estas recordações não apagam a saudade que todos trazemos nos corações, não aliviam a dor que todos carregamos... Passou um ano, mas a saudade é cada vez maior...o vazio cada vez maior...a dor cada vez mais insuportável...
Queria dizer-te que estamos todos bem, que a nossa família e todos os teus amigos ultrapassaram a tua perda, mas não posso, porque estaria a mentir... E a prova de que deixaste muitos amigos aqui neste lado do mundo são os sentimentos de tristeza, de desconsolo, de vazio que todos carregam quando ainda hoje depositavam flores na tua campa, quando ali ficam a tentar apoiar-nos, a nós família, mas eles próprios também indo abaixo e a deixarem-se chorar...
Eu sei e sempre soube que nos acompanhas passo a passo...mas eu também queria saber como tu estás aí... Eu não tenho dúvida que estás muito melhor aí do que aqui ao pé de nós como estavas nos últimos tempos... Eu sei que aí não sofres como sofreste aqui...e foi tão longo e tão forte o teu sofrimento... Mas eu queria saber se também tens saudades nossas, se também sentes a nossa falta, se tens saudades de rir connosco, de nos tocar, de nos abraçar, tal como nós temos tuas... É esta barreira que mais me dói...o não poder ouvir-te, o não poder sentir-te, o não poder falar contigo, o não conseguir tocar-te...e a incerteza de saber se estás mesmo bem e se também preferias estar aqui...
Podem dizer-me que esta incerteza pode vir da falta de fé e eu pergunto como posso eu ter fé quando Deus nos tira uma das coisas mais preciosas da nossa vida? Quando Deus tira a mãe ao meu primo, quando Deus tira a esposa ao meu tio, quando Deus tira a filha aos meus avós, quando Deus tira a única irmã do meu pai, quando Deus me tira a minha Madrinha, a minha Nininha...quando Deus te leva de todos nós, ainda que só fisicamente... Há coisas que não consigo aceitar, porque a dor é minha, a dor é dos que me rodeiam... Ninguém pode saber tudo o que nós partilhámos, porque foram momentos só nossos, meus e teus e de mais ninguém... Só nós sabemos o valor da nossa relação de madrinha-afilhada, tia-sobrinha, amiga-amiga... Só nós...
O relógio marca a hora em que há um ano atrás eu entrava por aquele corredor e seguia em direcção ao teu quarto no S.O., a hora em que te vi viva pela última vez...a pior imagem que guardo de ti...a imagem de um sofrimento atroz... Nesse dia contava ainda poder dizer-te olá, contava ainda conseguir ver-te sorrir, contava ainda conseguir ver os teus olhos... Mas ao chegar, apenas vi o sofrimento espelhado naquela cama de hospital... Uns olhos semi-cerrados, um corpo que transpirava incessantemente, um monitos que marcava valores que para mim me fizeram perceber que estavas a morrer aos poucos... Os teus órgãos começavam naquele momento a deixar de funcionar um a um... Não havia mais hipótese... Pela primeira vez saí do quarto a chorar e disse à minha mãe que o pior iria chegar dentro de momentos, não havia mais nada a fazer...
Foi uma questão de horas... Partiste ainda no dia 1 de Novembro de 2009...e o resto não quero mais recordar...
Não me digam para não chorar...não me digam para ter calma...
Madrinha, queria tanto poder abraçar-te neste momento, apagar este ano da minha vida, recuar 2 anos no tempo e não deixar que algum dia a malvada doença tivesse entrado dentro de ti... Queria poder ter-te salvo de todo o sofrimento, queria que estivesses sempre aqui até Deus te chamar apenas quando fosses velhinha... Queria ver de novo o sorriso do nosso menino, saber que ele era um menino feliz como sempre foi, que tinha sempre a sua mãe ao seu lado... Queria ver sempre o meu tio contigo ao lado, sempre feliz e brincalhão...não assim, triste, sozinho... Queria que voltassemos a ser 8 ou 13 à mesa e não 7 ou 12... Queria que estivesses sempre aqui fisicamente connosco...sempre...
Despeço-me com a certeza que, estejas onde estiveres, olhas a todo o instante para nós e guias-nos pelo melhor caminho...mas com a dor, a mágoa, a tristeza de não te poder ver nunca mais aqui neste mundo...
Um grande beijinho Madrinha...descansa em paz...