segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Minha Madrinha...

No dia em que percebi que algo de grave se poderia estar a passar, a minha vida mudou… Todos os minutos passaram a estar preenchidos pela angústia da incerteza e da espera pelo resultado do exame médico e pela cobardia de não conseguir alertar ninguém… E dentro de mim algo me fazia acreditar que nada de bom nos esperava nos próximos meses… Mas tentando ter alguma atitude positiva e tentando desviar o pensamento do que de pior pudesse acontecer, as notícias foram chegando a pouco e pouco e os resultados iam sendo sempre os piores… E agora? Que fazer? Terei eu força para aguentar tudo isto? E ela, a minha Madrinha, terá ela força?
Felizmente que, da parte de quem mais sofria, fomos sempre tendo um sorriso, o sorriso de sempre, a boa disposição… Até ao dia em que a vi no pior estado… Ainda hoje não sei de onde me chegou tanta força para a ver sofrer assim… E naquele dia, apenas um pensamento: “Quantas mais vezes terei eu de te ver assim? Que posso eu fazer para te aliviar este sofrimento?” O desespero instala-se… O sentimento de impotência por não conseguir fazer nada, por não conseguir ajudar em nada… Dói… E quando estas crises estavam mais atenuadas, eis que chega mais uma notícia… O primeiro dia de quimioterapia aproximava-se e com ele um novo estado de indisposição, impaciência… E eu, por onde andava? Ocupada com o outro lado da minha vida – a escola, o curso... Sentia-me distante dia para dia... As sessões de quimio e radioterapia eram sucessivas, ela decaía dia para dia e eu não suportava mais ver tanto sofrimento... Tentava mostrar o sorriso à frente dela, mas o coração ficava apertado quando ela me olhava como que a pedir respostas para todas as dúvidas que lhe enchiam o pensamento... Sei que procurava em mim alguma resposta, mas por muito que tentasse dizer-lhe "Madrinha, és forte, não desistas agora..." eu sabia que era grave, muito grave... Sofria para mim, desabafava com amigos, fugia das perguntas da família... Tantas viagens fizemos sozinhas até ao hospital com as vozes embargadas, sem conseguir balbuciar uma única palavra uma à outra...
Depois de passada a primeira fase dos tratamentos, vimo-la renascer! Voltava a fazer coisas que há largos meses não fazia... Vimo-la com mais força ainda! Vimos de novo aquele sorriso sem esforço, aquela vontade sem par de dizer os habituais "disparates" que só ela tinha jeito para dizer... Não a consegui ter ao meu lado num dos dias mais marcantes da minha vida, na benção das pastas, mas consegui tê-la ao meu lado, bem disposta a comemorar no dia seguinte... Mas...durou pouco...
No Verão, novo internamento...mais prolongado... Nunca vou esquecer o meu dia de anos, em que ela olhou para mim naquela cama de hospital e chorou... Nesse dia não consegui conter-me... Ambas sabíamos a forte ligação que tínhamos uma com a outra e aquela mão que me apertava e aquelas lágrimas que percorríam aquele rosto magro diziam tudo... Dias depois, voltava para casa... Mas seguiram-se mais dois meses de sofrimento... Nada resultava... Todos os tratamentos eram em vão...
E quando eu não esperava, um novo internamento...este sem regresso a casa...
Foi vencida pela doença... Deus levou-a de nós...da sua família, dos seus muitos amigos... No dia da partida, o que me sossegou foi pensar que tinha ganho uma estrela no céu, que me irá guiar para sempre e está sempre comigo e com todos os que a amam... Mas os dias passam, os meses passam...e a ausência é cada vez maior, a saudade aumenta dia para dia... O primeiro Natal, a primeira Páscoa sem aquele sorriso lindo, sem aquela boa disposição natural, sem aqueles mimos...
Sei que não ligavas a estas coisas, mas se ontem criei este blogue, foi porque senti a necessidade de me exprimir escrevendo... É uma forma de desabafo que aqui fica partilhado...
Sem ti Madrinha, as nossas vidas mudaram... Sentimos muito a saudade de te ter connosco... Onde quer que estejas, não deixes de mostrar o teu sorriso lindo e de dizer aquelas coisas que só tu sabias dizer com aquela graça que te caracterizava...
Até Sempre Madrinha...
C.

1 comentário:

  1. Uma ausencia para sempre....torna-se uma presença constante no nosso coraçao, q nunca nos deixa. Quem mais amamos estará sempre connosco, nos piores e nos melhores momentos. Olham por nós..n fiques triste :)

    ResponderEliminar